Olhando para Pasadena
Aqui estou eu, acordado desde as 4 da manhã devido a um jet lag de 9 horas... Por estar meio cansado, não escrevo nada, mas deixo um texto da minha mãe sobre sua visita no começo de Dezembro, transcrito na íntegra. Grande, mas muito, muito bonito. Vale a pena.
Brigadão, mãe.
"Para quem (ainda) não conhece Pasadena
Eis aqui relato de alguém que esteve lá por cerca de 10 dias, circulando pelos arredores... de uma bela cidade. Bela e pequena, situada a uns trinta minutos (de carro, é claro), de Los Angeles. Pequena para os padrões americanos, pequena diante da grande Los Angeles. Mas não é uma cidade típica do interior americano, no sentido de que não é um centro de conservadorismo. É comportada – não ouse atravessar as ruas sem que o sinal esteja aberto para você, segundo Thiago é grande o risco de uma multa de U$140 – mas não careta. Tem vida própria, um comércio interessante, muitos malls e bons restaurantes, um grande movimento à noite... Por partes, então.
Thiago mora no conjunto residencial de Caltech. São vários prédios baixos, de três andares, com apartamentos desde o térreo. As fachadas são idênticas, e para diferenciar um do outro só atentando para o número... É o suficiente para os incautos (como essa aqui) se desorientarem. Adivinhe se eu não tentei com minha chave emprestada abrir a casa do vizinho, que tem a mesma placa "103" na porta... Só me dei conta olhando para dentro da cozinha e estranhando os utensílios que se vê pela janela! Foi uma quase invasão involuntária...
Nesta área residencial há apartamentos, e também um Centro de Convivência. Com mesas na varanda e a imprescindível churrasqueira, o centro pode ser reservado pelos alunos para festas com amigos ou a família. No dia em que cheguei estavam lá alguns orientais com seus grelhados cheirosos, mas tive a impressão de que as festas "mesmo" acontecem nas casas daqueles que já se mudaram para fora do campus. No Centro há também uma "área de trabalho", onde estão as (também imprescindíveis) lavadoras e secadoras; não vi muito movimento ali, interpretem como quiserem...
Os apartamentos são pequenos, mas ajeitados. Thiago mora em uma unidade com 4 quartos, o que equivale a dizer que tem 3 companheiros de cotidiano. São George, Michael e Andrew, todos americanos descendentes de orientais e cursando seu primeiro ano de doutorado em Engenharia (Química e Aeronáutica). São todos muito gentis. Michael apanhou seu carro para seguir até o aeroporto de Los Angeles e me dar uma carona até Pasadena. Valeu, Michael! Com George dividimos uma omelete preparada para o café da manhã (foi quando descobri que ele adora cebolas!) e com Andrew um almoço brasileirinho, com carne assada, arroz e maionese. Parece um ambiente de muita convivência? Engano. Às voltas com seus cursos, nenhum deles para muito em casa, e quando estão fecham-se em seus quartos com seus computadores e livros. As breves refeições foram as poucas chances que tive de estar com eles e conhecê-los. Nem mesmo aos domingos essa rotina muda, seja porque os estudos não respeitam finais de semana seja porque os sábados e domingos são os únicos dias em que parece possível estar com amigos, praticar esportes ou ir à Igreja – atividade certa de Michael, que sai de casa impecavelmente vestido em seu terno e gravata às 8 da manhã para só retornar lá pelo meio dia e então sair de novo ou sumir em seu quarto...
Não sei se é assim o tempo todo. Afinal, eu estava lá no período das finals, as temidas provas de final de trimestre. Todos falam disso. Thiago, seus companheiros de apartamento, os colegas da Astronomia e outros poucos que tive a chance de conhecer. É uma prova curiosa pois cada aluno agenda a sua, que é feita em casa e sem consulta. Um sistema inimaginável para qualquer brasileiro, convenhamos. Interessante porque o aluno diz "essa será minha data", o que implica em afirmar que "neste dia estarei com toda a matéria preparada", o que implica em responsabilizar-se para além do que exigimos aqui. Commitment... Além disso, porque levar a prova e jurar que não abrirá o livro que está à sua frente é algo que desconhecemos. Perguntei a Thiago como é que os professores podiam ter certeza de que não haveria consulta, e ele mesmo não sabia ao certo; pareceu-me primeiro que ali funciona a confiança até prova em contrário, e que além disso o professor precisa conhecer muito de cada aluno para saber os fortes e os fracos de cada um, antevendo de certa forma o desempenho nas provas... Interessante, interessante...
Thiago estuda pouco em casa, e segundo ele me disse não só nos períodos em que a mama está lá ocupando o quarto... Os alunos da Astronomia têm uma sala em Caltech com uma mesa e um computador para cada um. São quatro doutorandos em 2004, portanto uma grande sala com mesas e computadores para trabalho onde eles se reúnem até altas madrugadas para as "listas de exercício". Com estes colegas de Thiago tive pouca convivência, a menos de Hilke, a alemã de quem falo melhor abaixo.
O campus de Caltech fica a 5 minutos das residências. Saindo pelos fundos do conjunto residencial – que ocupa uma quadra inteira - , chegamos à Wilson Avenue e já estamos lá. Não é grande. Mas é sem dúvida muito bonito. Alguns edifícios têm uma bela arquitetura, como o moderno centro de pesquisas em Biologia, com sua fachada em cerâmica e vidro; outros, mais antigos, têm arquitetura colonial espanhola, com arcos nas longas varandas e colunas por onde sobem trepadeiras, algumas ainda floridas. Mas belo mesmo é o conjunto, com prédios razoavelmente afastados uns dos outros, largas ruas de pedestres ladeadas por gramados e jardins muito, muito bem cuidados. Mesmo no deserto (afinal, LA está num deserto!) a grama é verde, e mesmo no inverno as flores estão presentes em muitos canteiros. Isso custa muito, disse Thiago; regar a grama para fazê-la verde em pleno deserto, imagine!
Mas para quem anda por lá, a impressão de cuidado é o que conta. Muitas árvores, muitas flores, tudo muito limpo, com (poucos) estudantes circulando pelas alamedas, ou sentados nos vários bancos à beira dos jardins, tudo contribui para um clima que é calmo, ameno, acolhedor.
De toda a cidade se vêem as colinas de Hollywood, aquelas de que conhecemos o letreiro famoso. De Pasadena não vemos o letreiro, mas de toda a cidade se vêem, ao longe e ao norte, as colinas. Nessa época com alguns picos nevados, as colinas emolduram a cidade e fazem uma bela composição. Mas falo disso aqui porque da Biblioteca de Caltech, o prédio mais alto do campus, a vista é deslumbrante. A cidade toda abaixo, com as colinas ao fundo... dá pra ficar muito tempo olhando essa paisagem de sonho. Valeu, Thiago, por me colocar diante daquelas imensas janelas envidraçadas admirando a sua Pasadena!
Bem próximo a Caltech – dá até pra ir a pé – está o Huntington Museum. Mais que um museu, é um conjunto composto por vários museus e muitos jardins. Todos dizem que os jardins são lindíssimos, mas eu pouco posso falar deles. Primeiro porque a época não é muito propícia – afinal, o inverno está chegando e as folhas e flores minguando. Ainda assim há flores, o que mostra que a primavera deve ser linda. Mas só pude ver as flores através da cortina de água que caía. Sim, chove em Pasadena. Só muito de vez em quando, dizem, mas choveu muito na minha cabeça. Ficamos por isso, eu e Odair, no interior dos museus, mas é preciso dizer que eles merecem. O acervo é muito interessante, e as mostras muito bem organizadas. O ingresso é caro (U$15 cada adulto), mas vale. Valeria mais com os jardins, mas que fazer?
A Lake Avenue, muito próxima à casa de Thiago, na direção oposta a Caltech, concentra o comércio da região. Andei muito por ali, de loja em loja (jeito que encontrei de compartilhar com Thiago a cidade onde ele vive) nos longos períodos em que ficava sozinha enquanto Thiago se dedicava às aulas ou às suas famosas listas de exercício. Há ali lojas de roupas (desde a Macy's, cadeia que todos provavelmente conhecem) até a Ross, mais popular, passando por lojas masculinas refinadas ou esportivas. Há ali também um comércio interessante de belos produtos para a casa, de armários modulados que você monta a seu bel prazer até objetos de decoração, estes mais ao (duvidoso) gosto country americano. Há muita gente circulando, com direito a congestionamento às 5 da tarde, ou parada nos vários cafés e lanchonetes, que vendem tanto os condenados hambúrgueres quanto as modernas saladas... estas mais consumidas pelos californianos, cujo peso foge (para baixo) da gorda média americana.
Cruzando a Lake Avenue, lá em cima, a uns 15 minutos de caminhada, está a Colorado Avenue. Entrando à esquerda, você se dirige ao centro histórico da cidade, onde se concentram os melhores restaurantes, e a vida noturna que ferve mais nos finais de semana. Há cinemas em todo este trecho, mas daqui conheci os restaurantes. Bem, esse não é o forte americano, mas surpreendentemente há boa comida italiana e espanhola, para ficar com os lugares a que fomos. Não é baratinho como nas lanchonetes, mas o preço é "suportável".
Essa é visão aproximada da parte comercial da cidade. Mas isso não é tudo. Há os arredores de Pasadena - o mar e a terra.
Assim que chegamos fomos, eu, Thiago, Hilke, a colega alemã, seu namorado, sua mãe, Karín, a monitora da turma de Astronomia, estudante do 2o. ano e mais alguns amigos – a um passeio pelas ilhas da costa. Eu, Thiago e Margareth estávamos no carro de Karín, uma porto-riquenha animadíssima, falante, alegre, cheia de casos e histórias para contar. Viajamos por cerca de uma hora até a estação de barcos e por mais uma hora de barco até as ilhas, uma reserva ecológica que é viveiro de pássaros e trajetória de baleias e golfinhos. Meio fora de época, não vimos muitos pássaros e nem pensar em baleias. Mas os golfinhos estavam lá, centenas deles, pulando em volta do barco e fazendo o mar vivo. Nunca vi tantos golfinhos juntos, nem mesmo em Noronha. Todos os passageiros do barco agitadíssimos, festejando as manobras e os saltos dos bichos em volta. Tudo isso fizemos debaixo da chuva – que caiu quase o dia inteiro em nossas cabeças – e ciceroneados por uma voluntária americana, militante ambientalista com uma voz esganiçada que para se fazer ouvir por todos gritava. Literalmente, gritava. Hilke me levou às gargalhadas quando fazia manobras para escolher um lugar à distância da americana, para que os gritos não doessem nos ouvidos. Entre explicações e gritos andamos pela ilha toda, olhando enseadas, praias, altas encostas sobre o mar do Pacífico. Com tudo isso, o passeio valeu, foi divertido, animado.
Por terra, fomos eu, Odair e Thiago à Fundação Paul Getty, nos arredores de Los Angeles. Chegamos lá em meia hora de carro, para visitar um museu digno de nota. O acervo é interessante, mas a arquitetura é simplesmente monumental, toda branca, linda, imponente, de um bom gosto inacreditável mesclando mármore italiano rústico e polido, e vidro, no alto de uma alta colina. Os detalhes da construção são em si mesmo obras de arte. São muitos prédios separados, e a cada passagem entre um e outro a arquitetura revela um ângulo novo, uma composição diferente, em que nada se choca com o já visto, mas transita, muda harmonicamente. Em suma, fiquei encantada.
Saímos de lá para um pôr de sol em Santa Mônica, lindo sobre o cais que avança sobre o Pacífico que eu ainda não conhecia. Thiago nos levou depois à rua do badalo, do movimento, uma rua de pedestres onde há gente, muita gente, muita festa, muitas lojas, muitos artistas exibindo seus talentos – hum... nem sempre... – nas calçadas, um movimento um tanto nova-iorquino ou europeu.
Vi muito, e deixei de ver outro tanto...
Vou ter muito que ver na volta. Quero voltar a Huntington para ver as flores que não vi. Quero ver de novo a Fundação Getty. Mas meu maior motivo de retorno será sem dúvida meu filho. De tudo isso, o que me fica é que Thiago está bem em Pasadena. Porque ela é uma cidade bonita e acolhedora mas sobretudo porque Thiago está lá, quero dizer está lá com tudo que tem direito – eu vi que em dois meses ele montou sua casa, tem muitos conhecidos – claro, não são ainda amigos, pois isso exige tempo – e tem a paixão pela cidade. Ele não sabe só de Santa Mônica e da Fundação Getty mas sabe dos cinemas, do boteco onde se come o melhor mexicano, do cantinho em que se vendem quadrinhos de qualidade, da loja de fotografia que trabalha com promoções. Sabe das gargalhadas de George diante da TV, dos sotaques diferentes dos estrangeiros, do humor dos colegas e dos monitores. Sabe onde estão seus amores. Thiago está lá. Recebeu-me pela primeira vez em sua própria casa, experiência inédita para nós dois, estranha, mas desempenhada com classe, e com paciência até mesmo para minhas investidas culinárias desastradas quando tentava fazer um forno americano e os ingredientes americanos comportarem-se como brasileiros...
Eu, estou aqui com uma nova vida. Saudosa, pois italiana serei sempre, mas orgulhosa e agora tranqüila, pronta para uma nova fase de nossas vidas.
Mais uma vez, meu filho, parabéns por suas conquistas. De cara para um outro oceano, fica aqui uma mãe junto à qual você tem, sempre e para sempre, seu lugar reservado.
Com meu enorme beijo,
Hebe"
Brigadão, mãe.
"Para quem (ainda) não conhece Pasadena
Eis aqui relato de alguém que esteve lá por cerca de 10 dias, circulando pelos arredores... de uma bela cidade. Bela e pequena, situada a uns trinta minutos (de carro, é claro), de Los Angeles. Pequena para os padrões americanos, pequena diante da grande Los Angeles. Mas não é uma cidade típica do interior americano, no sentido de que não é um centro de conservadorismo. É comportada – não ouse atravessar as ruas sem que o sinal esteja aberto para você, segundo Thiago é grande o risco de uma multa de U$140 – mas não careta. Tem vida própria, um comércio interessante, muitos malls e bons restaurantes, um grande movimento à noite... Por partes, então.
Thiago mora no conjunto residencial de Caltech. São vários prédios baixos, de três andares, com apartamentos desde o térreo. As fachadas são idênticas, e para diferenciar um do outro só atentando para o número... É o suficiente para os incautos (como essa aqui) se desorientarem. Adivinhe se eu não tentei com minha chave emprestada abrir a casa do vizinho, que tem a mesma placa "103" na porta... Só me dei conta olhando para dentro da cozinha e estranhando os utensílios que se vê pela janela! Foi uma quase invasão involuntária...
Nesta área residencial há apartamentos, e também um Centro de Convivência. Com mesas na varanda e a imprescindível churrasqueira, o centro pode ser reservado pelos alunos para festas com amigos ou a família. No dia em que cheguei estavam lá alguns orientais com seus grelhados cheirosos, mas tive a impressão de que as festas "mesmo" acontecem nas casas daqueles que já se mudaram para fora do campus. No Centro há também uma "área de trabalho", onde estão as (também imprescindíveis) lavadoras e secadoras; não vi muito movimento ali, interpretem como quiserem...
Os apartamentos são pequenos, mas ajeitados. Thiago mora em uma unidade com 4 quartos, o que equivale a dizer que tem 3 companheiros de cotidiano. São George, Michael e Andrew, todos americanos descendentes de orientais e cursando seu primeiro ano de doutorado em Engenharia (Química e Aeronáutica). São todos muito gentis. Michael apanhou seu carro para seguir até o aeroporto de Los Angeles e me dar uma carona até Pasadena. Valeu, Michael! Com George dividimos uma omelete preparada para o café da manhã (foi quando descobri que ele adora cebolas!) e com Andrew um almoço brasileirinho, com carne assada, arroz e maionese. Parece um ambiente de muita convivência? Engano. Às voltas com seus cursos, nenhum deles para muito em casa, e quando estão fecham-se em seus quartos com seus computadores e livros. As breves refeições foram as poucas chances que tive de estar com eles e conhecê-los. Nem mesmo aos domingos essa rotina muda, seja porque os estudos não respeitam finais de semana seja porque os sábados e domingos são os únicos dias em que parece possível estar com amigos, praticar esportes ou ir à Igreja – atividade certa de Michael, que sai de casa impecavelmente vestido em seu terno e gravata às 8 da manhã para só retornar lá pelo meio dia e então sair de novo ou sumir em seu quarto...
Não sei se é assim o tempo todo. Afinal, eu estava lá no período das finals, as temidas provas de final de trimestre. Todos falam disso. Thiago, seus companheiros de apartamento, os colegas da Astronomia e outros poucos que tive a chance de conhecer. É uma prova curiosa pois cada aluno agenda a sua, que é feita em casa e sem consulta. Um sistema inimaginável para qualquer brasileiro, convenhamos. Interessante porque o aluno diz "essa será minha data", o que implica em afirmar que "neste dia estarei com toda a matéria preparada", o que implica em responsabilizar-se para além do que exigimos aqui. Commitment... Além disso, porque levar a prova e jurar que não abrirá o livro que está à sua frente é algo que desconhecemos. Perguntei a Thiago como é que os professores podiam ter certeza de que não haveria consulta, e ele mesmo não sabia ao certo; pareceu-me primeiro que ali funciona a confiança até prova em contrário, e que além disso o professor precisa conhecer muito de cada aluno para saber os fortes e os fracos de cada um, antevendo de certa forma o desempenho nas provas... Interessante, interessante...
Thiago estuda pouco em casa, e segundo ele me disse não só nos períodos em que a mama está lá ocupando o quarto... Os alunos da Astronomia têm uma sala em Caltech com uma mesa e um computador para cada um. São quatro doutorandos em 2004, portanto uma grande sala com mesas e computadores para trabalho onde eles se reúnem até altas madrugadas para as "listas de exercício". Com estes colegas de Thiago tive pouca convivência, a menos de Hilke, a alemã de quem falo melhor abaixo.
O campus de Caltech fica a 5 minutos das residências. Saindo pelos fundos do conjunto residencial – que ocupa uma quadra inteira - , chegamos à Wilson Avenue e já estamos lá. Não é grande. Mas é sem dúvida muito bonito. Alguns edifícios têm uma bela arquitetura, como o moderno centro de pesquisas em Biologia, com sua fachada em cerâmica e vidro; outros, mais antigos, têm arquitetura colonial espanhola, com arcos nas longas varandas e colunas por onde sobem trepadeiras, algumas ainda floridas. Mas belo mesmo é o conjunto, com prédios razoavelmente afastados uns dos outros, largas ruas de pedestres ladeadas por gramados e jardins muito, muito bem cuidados. Mesmo no deserto (afinal, LA está num deserto!) a grama é verde, e mesmo no inverno as flores estão presentes em muitos canteiros. Isso custa muito, disse Thiago; regar a grama para fazê-la verde em pleno deserto, imagine!
Mas para quem anda por lá, a impressão de cuidado é o que conta. Muitas árvores, muitas flores, tudo muito limpo, com (poucos) estudantes circulando pelas alamedas, ou sentados nos vários bancos à beira dos jardins, tudo contribui para um clima que é calmo, ameno, acolhedor.
De toda a cidade se vêem as colinas de Hollywood, aquelas de que conhecemos o letreiro famoso. De Pasadena não vemos o letreiro, mas de toda a cidade se vêem, ao longe e ao norte, as colinas. Nessa época com alguns picos nevados, as colinas emolduram a cidade e fazem uma bela composição. Mas falo disso aqui porque da Biblioteca de Caltech, o prédio mais alto do campus, a vista é deslumbrante. A cidade toda abaixo, com as colinas ao fundo... dá pra ficar muito tempo olhando essa paisagem de sonho. Valeu, Thiago, por me colocar diante daquelas imensas janelas envidraçadas admirando a sua Pasadena!
Bem próximo a Caltech – dá até pra ir a pé – está o Huntington Museum. Mais que um museu, é um conjunto composto por vários museus e muitos jardins. Todos dizem que os jardins são lindíssimos, mas eu pouco posso falar deles. Primeiro porque a época não é muito propícia – afinal, o inverno está chegando e as folhas e flores minguando. Ainda assim há flores, o que mostra que a primavera deve ser linda. Mas só pude ver as flores através da cortina de água que caía. Sim, chove em Pasadena. Só muito de vez em quando, dizem, mas choveu muito na minha cabeça. Ficamos por isso, eu e Odair, no interior dos museus, mas é preciso dizer que eles merecem. O acervo é muito interessante, e as mostras muito bem organizadas. O ingresso é caro (U$15 cada adulto), mas vale. Valeria mais com os jardins, mas que fazer?
A Lake Avenue, muito próxima à casa de Thiago, na direção oposta a Caltech, concentra o comércio da região. Andei muito por ali, de loja em loja (jeito que encontrei de compartilhar com Thiago a cidade onde ele vive) nos longos períodos em que ficava sozinha enquanto Thiago se dedicava às aulas ou às suas famosas listas de exercício. Há ali lojas de roupas (desde a Macy's, cadeia que todos provavelmente conhecem) até a Ross, mais popular, passando por lojas masculinas refinadas ou esportivas. Há ali também um comércio interessante de belos produtos para a casa, de armários modulados que você monta a seu bel prazer até objetos de decoração, estes mais ao (duvidoso) gosto country americano. Há muita gente circulando, com direito a congestionamento às 5 da tarde, ou parada nos vários cafés e lanchonetes, que vendem tanto os condenados hambúrgueres quanto as modernas saladas... estas mais consumidas pelos californianos, cujo peso foge (para baixo) da gorda média americana.
Cruzando a Lake Avenue, lá em cima, a uns 15 minutos de caminhada, está a Colorado Avenue. Entrando à esquerda, você se dirige ao centro histórico da cidade, onde se concentram os melhores restaurantes, e a vida noturna que ferve mais nos finais de semana. Há cinemas em todo este trecho, mas daqui conheci os restaurantes. Bem, esse não é o forte americano, mas surpreendentemente há boa comida italiana e espanhola, para ficar com os lugares a que fomos. Não é baratinho como nas lanchonetes, mas o preço é "suportável".
Essa é visão aproximada da parte comercial da cidade. Mas isso não é tudo. Há os arredores de Pasadena - o mar e a terra.
Assim que chegamos fomos, eu, Thiago, Hilke, a colega alemã, seu namorado, sua mãe, Karín, a monitora da turma de Astronomia, estudante do 2o. ano e mais alguns amigos – a um passeio pelas ilhas da costa. Eu, Thiago e Margareth estávamos no carro de Karín, uma porto-riquenha animadíssima, falante, alegre, cheia de casos e histórias para contar. Viajamos por cerca de uma hora até a estação de barcos e por mais uma hora de barco até as ilhas, uma reserva ecológica que é viveiro de pássaros e trajetória de baleias e golfinhos. Meio fora de época, não vimos muitos pássaros e nem pensar em baleias. Mas os golfinhos estavam lá, centenas deles, pulando em volta do barco e fazendo o mar vivo. Nunca vi tantos golfinhos juntos, nem mesmo em Noronha. Todos os passageiros do barco agitadíssimos, festejando as manobras e os saltos dos bichos em volta. Tudo isso fizemos debaixo da chuva – que caiu quase o dia inteiro em nossas cabeças – e ciceroneados por uma voluntária americana, militante ambientalista com uma voz esganiçada que para se fazer ouvir por todos gritava. Literalmente, gritava. Hilke me levou às gargalhadas quando fazia manobras para escolher um lugar à distância da americana, para que os gritos não doessem nos ouvidos. Entre explicações e gritos andamos pela ilha toda, olhando enseadas, praias, altas encostas sobre o mar do Pacífico. Com tudo isso, o passeio valeu, foi divertido, animado.
Por terra, fomos eu, Odair e Thiago à Fundação Paul Getty, nos arredores de Los Angeles. Chegamos lá em meia hora de carro, para visitar um museu digno de nota. O acervo é interessante, mas a arquitetura é simplesmente monumental, toda branca, linda, imponente, de um bom gosto inacreditável mesclando mármore italiano rústico e polido, e vidro, no alto de uma alta colina. Os detalhes da construção são em si mesmo obras de arte. São muitos prédios separados, e a cada passagem entre um e outro a arquitetura revela um ângulo novo, uma composição diferente, em que nada se choca com o já visto, mas transita, muda harmonicamente. Em suma, fiquei encantada.
Saímos de lá para um pôr de sol em Santa Mônica, lindo sobre o cais que avança sobre o Pacífico que eu ainda não conhecia. Thiago nos levou depois à rua do badalo, do movimento, uma rua de pedestres onde há gente, muita gente, muita festa, muitas lojas, muitos artistas exibindo seus talentos – hum... nem sempre... – nas calçadas, um movimento um tanto nova-iorquino ou europeu.
Vi muito, e deixei de ver outro tanto...
Vou ter muito que ver na volta. Quero voltar a Huntington para ver as flores que não vi. Quero ver de novo a Fundação Getty. Mas meu maior motivo de retorno será sem dúvida meu filho. De tudo isso, o que me fica é que Thiago está bem em Pasadena. Porque ela é uma cidade bonita e acolhedora mas sobretudo porque Thiago está lá, quero dizer está lá com tudo que tem direito – eu vi que em dois meses ele montou sua casa, tem muitos conhecidos – claro, não são ainda amigos, pois isso exige tempo – e tem a paixão pela cidade. Ele não sabe só de Santa Mônica e da Fundação Getty mas sabe dos cinemas, do boteco onde se come o melhor mexicano, do cantinho em que se vendem quadrinhos de qualidade, da loja de fotografia que trabalha com promoções. Sabe das gargalhadas de George diante da TV, dos sotaques diferentes dos estrangeiros, do humor dos colegas e dos monitores. Sabe onde estão seus amores. Thiago está lá. Recebeu-me pela primeira vez em sua própria casa, experiência inédita para nós dois, estranha, mas desempenhada com classe, e com paciência até mesmo para minhas investidas culinárias desastradas quando tentava fazer um forno americano e os ingredientes americanos comportarem-se como brasileiros...
Eu, estou aqui com uma nova vida. Saudosa, pois italiana serei sempre, mas orgulhosa e agora tranqüila, pronta para uma nova fase de nossas vidas.
Mais uma vez, meu filho, parabéns por suas conquistas. De cara para um outro oceano, fica aqui uma mãe junto à qual você tem, sempre e para sempre, seu lugar reservado.
Com meu enorme beijo,
Hebe"
