Ou pelo menos é o que diz a manchete do Globo de hoje. Mas não é bem assim... Tudo continua no seu devido lugar, nenhuma grande descoberta foi feita e, acima de tudo, a mudança não é tão importante como a imprensa quer fazer parecer. Vou tentar apresentar os fatos sem o sensacionalismo.
Está acontecendo essa semana em Praga um encontro entre astrônomos do mundo inteiro: o encontro da União Astronômica Internacional, que acontece a cada três anos. Notem que o encontro NÃO é para discutir o destino de Plutão como planeta, mas para apresentar resultados de pesquisa em geral. E acreditem, a porcentagem de cientistas que estudam o Sistema Solar não é tão grande; tem gente estudando estrelas, a nossa galáxia ou, como eu, objetos fora da galáxia e a formação do Universo. Entre os que estudam o Sistema Solar, me parece que não muitos estudam os planetas em si; a maioria está interessada em descobrir novos objetos além de Plutão, objetos esses que têm muito a dizer sobre a própria formação do Sol e planetas.
Assim, a discussão sobre Plutão é só pra colocar ordem e decidir o que é um planeta de fato. Devo dizer que eu concordo com o resultado final; Plutão tem características muito distintas, que o colocam à parte dos outros oito. Mas isso no grande esquema da Astronomia não importa tanto, e acaba sendo uma decisão política: o cara aqui de Caltech, por exemplo, acaba de se transformar em um descobridor de objetos no cinturão de Kuiper, ao invés de um descobridor de planetas (ele descobriu Xena, o até então "décimo planeta"); um título não tão impressionante, talvez. Mas mesmo assim, nada demais.
Quem acha isso importante de verdade é a imprensa internacional, que sempre se alvoroça quando a Astronomia tem algo a dizer sobre temas que podem vender jornal. E o vão entre ciência e público cresce ainda mais, porque todo mundo pensa que os astrônomos estão sentados ganhando dinheiro público e discutindo taxonomia planetária - não estou exagerando, são os comentários no site do Globo. Eu entendo o debate sobre o quão importante é a pesquisa científica e quanto dinheiro deve ser investido, mas o que eu faço não é bem isso.
E eles continuam publicando reportagens sobre um planeta que poderia ter vida, ou sobre a maior explosão já encontrada, ou sobre o objeto mais distante. Pior, no caso de Plutão, juntam uma entrevista com uma astróloga sobre o que a mudança implica para as pessoas do signo de Escorpião. Isso não é ciência, é um furo de reportagem. Em 1999, se descobriu que o Universo estava expandindo com aceleração positiva, e isso mudou o paradigma da Cosmologia. A descoberta foi considerada o maior avanço científico do ano, e para mim, um dos maiores avanços da década. Agora, quantas pessoas se lembram de tanto destaque na primeira página? Pois é, porque o trabalho de divulgação científica é relegado a segundo (terceiro, quarto?) plano, e no final das contas ninguém tem a menor idéia do que eu e 90% dos astrônomos/astrofísicos fazemos.
Conclusão: querem saber sobre ciência? Perguntem ao seu amigo físico / astrônomo / biológo / químico mais próximo, porque o jornal vai fazer você pensar que uma mudança de nome representa uma revolução científica.
A casa, o porta-retratos e o oceano
Há 12 anos
Um comentário:
Hmmm... Agora ficou sem graça o fim de Plutão como planeta hehehe Ah, depois temos que te repassar os e-mails com as piadinhas sobre Plutão. Pedro e Willy são piadistas natos, se vc me entende hehehe
Beijos,
Mari
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